O psicanalista René Dentz aponta que a vida moderna funciona, mas não oferece uma sensação de satisfação. Compromissos são cumpridos e boletos pagos, ainda assim uma sensação de vazio persiste. Segundo ele, não se trata de ingratidão ou fraqueza, mas de um desencontro entre a vida que se leva e a capacidade de senti-la.
Esse fenômeno é descrito como um sintoma silencioso da contemporaneidade. A desconexão de si mesmo ocorre mesmo em uma vida bem-sucedida. O problema, segundo Dentz, não é o fracasso, mas o funcionamento vazio. A sociedade oferece respostas rápidas, mas falta a coragem de escutar o que realmente importa.
A psicanálise propõe escutar aquilo que incomoda, sem a pressa de corrigir. Dores são vistas como mensagens, não como defeitos. A escuta exige tempo e paciência, algo raro em um mundo que valoriza a rapidez. Muitas pessoas evitam esse encontro por medo do que podem descobrir sobre si mesmas.
A mudança não vem de fora, mas de dentro. É preciso dar forma aos sentimentos e reconhecer as próprias contradições. O passado não resolvido continua operando no presente. A verdadeira transformação começa quando algo interno pode ser dito e compartilhado.
Não há garantias de felicidade, mas há a possibilidade de viver uma vida que faça sentido. Dentz sugere que não é necessário esperar o desmoronamento para buscar essa escuta. O maior risco é continuar como está e sentir que falta algo essencial todos os dias.
René Dentz é psicanalista com pós-doutorado pela Freiburg Universität, na Suíça, professor de filosofia na PUC-Minas, finalista do Jabuti Acadêmico 2025, comentarista da Rádio Itatiaia e pai de Sofia e Beatriz.
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