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MS tem alta de 18,8% em mortes de mulheres, contrariando tendência nacional

O Atlas da Violência, divulgado nesta terça-feira (26), mostra que Mato Grosso do Sul teve aumento de 18,8% nos assassinatos de mulheres em 2024, na contramão do cenário nacional. O Estado registrou 57 mortes de mulheres naquele ano, contra 48 em 2023.

Dois casos ocorridos em 2024 foram registrados no mesmo dia, em Campo Grande: Dayane Xavier da Silva foi morta no dia 22 de março, no Bairro Nova Campo Grande; cerca de três horas depois, no Jardim Centenário, Renata Andrade de Campos Widal, de 39 anos, foi morta pelo irmão.

No Brasil, segundo dados do sistema de saúde, 3.642 mulheres foram assassinadas em 2024, o que representa uma taxa de 3,4 mortes a cada 100 mil mulheres e uma queda de 6,7% em relação a 2023. O estudo é do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Com esse resultado, Mato Grosso do Sul aparece no grupo de sete unidades da federação que registraram alta nos homicídios de mulheres entre 2023 e 2024. Também tiveram aumento Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Paraná e Roraima.

Apesar da alta no comparativo anual, a série histórica mostra queda no período de dez anos. Entre 2014 e 2024, o total de homicídios de mulheres em Mato Grosso do Sul teve redução de 32,9%. Em 2014, o Estado havia registrado 85 assassinatos de mulheres.

No cenário nacional, a redução acompanha uma tendência observada ao longo da última década. Desde 2014, primeiro ano da série histórica analisada, houve diminuição de 27,7% na taxa de homicídios de mulheres notificados pelo sistema de saúde. Mesmo assim, o volume segue alto: entre 2014 e 2024, 46.336 mulheres foram assassinadas no país.

Os estados com as maiores taxas de homicídios de mulheres em 2024 foram Roraima, Rondônia, Ceará, Pernambuco e Bahia. O dado indica que os níveis mais elevados de violência letal contra mulheres se concentraram, sobretudo, nas regiões Norte e Nordeste.

O Atlas também analisa a relação entre homicídios de mulheres em residências e feminicídios registrados pelas estatísticas policiais. A proporção de homicídios de mulheres ocorridos em residências subiu de 26,5% em 2014 para 35,2% em 2024, sinal de que a casa segue como espaço de risco para muitas vítimas.

Os feminicídios também passaram a representar uma fatia maior dos homicídios dolosos de mulheres registrados pelas polícias. No Brasil, esse percentual subiu de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024, segundo o Fórum Brasileiro. O aumento pode refletir melhora na identificação e classificação dos casos como feminicídio, mas também mostra que a violência de gênero segue com peso elevado nas mortes violentas de mulheres.

A diferença entre os indicadores sugere que a queda no total de homicídios de mulheres não foi acompanhada, na mesma intensidade, pela redução dos casos ligados ao ambiente doméstico. Esse tipo de ocorrência é usado pelo estudo como aproximação para medir a dinâmica dos feminicídios.

Entre as mulheres negras, o cenário segue grave. Em 2024, foram registradas 2.457 mulheres negras vítimas de homicídio no Brasil, o que representa 67,5% do total de homicídios femininos no país. A taxa nacional foi de 4 mulheres negras mortas a cada 100 mil mulheres negras, com queda de 9,1% em relação ao ano anterior.

Em Mato Grosso do Sul, os homicídios de mulheres negras caíram de 44 casos em 2014 para 26 em 2024, redução de 40,9% no período. A queda foi mais intensa que a registrada no Brasil, onde os casos passaram de 2.992 para 2.457, recuo de 17,9%.

Na comparação anual, o Estado também teve leve redução entre mulheres negras, passando de 27 mortes em 2023 para 26 em 2024, queda de 3,7%. No país, a redução foi maior, de 7,7%. Já entre 2019 e 2024, Mato Grosso do Sul ficou estável, com 0% de variação, enquanto o Brasil teve recuo de 0,4%.

Além dos assassinatos, o Atlas aponta a dimensão da violência não letal contra mulheres. Em 2024, 293.842 mulheres foram vítimas de violência não letal no Brasil, com a maior parte dos casos registrada em contexto doméstico.

A análise por faixa etária mostra dinâmicas diferentes conforme a idade da vítima. Entre crianças de 0 a 9 anos e mulheres a partir de 70 anos, a negligência aparece como a forma predominante de violência. Entre meninas de 10 a 14 anos, 45,5% dos registros foram de violência sexual.

A partir dos 15 anos até os 69 anos, a violência física passa a ser a manifestação mais comum. Segundo o estudo, esses casos estão frequentemente ligados a relações íntimas e aparecem acompanhados de alta proporção de violência múltipla, quando diferentes formas de agressão ocorrem ao mesmo tempo.

A situação conjugal das vítimas também ajuda a entender o perfil dos registros. Entre os casos com essa informação identificada, mulheres solteiras representam 37,5% das vítimas, enquanto mulheres casadas somam 31,2%.

Os dados de reincidência reforçam a continuidade da violência. Para o estudo, reincidência é o registro, em 2024, de um novo episódio de violência contra uma mulher que já tinha notificações anteriores de vitimização. No contexto de violência doméstica, considerando os casos válidos, 66,2% das mulheres atendidas pela rede de saúde já haviam sofrido violência da mesma natureza anteriormente.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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