O dólar subiu frente ao real a partir de maio, enquanto Wall Street continua renovando máximas desde o final de 2023. Analistas atribuem o desempenho das bolsas norte-americanas ao crescimento dos lucros corporativos, aos investimentos em inteligência artificial (IA) e a uma economia resiliente. Com a valorização da moeda, investidores se perguntam se ainda vale a pena dolarizar os investimentos nos Estados Unidos.
Para Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor da Paramis Avantgarde Asset, a menor preocupação do investidor brasileiro deveria ser acertar o câmbio. Ele classifica a alocação no exterior como estratégica, e não como uma aposta cambial. Com o dólar perto de R$ 5,20, França sugere uma entrada parcelada para quem tem pouca exposição global. “O risco maior é ficar 100% dependente de Brasil, real e juros locais”, afirma.
O investidor pode acessar o mercado dos EUA sem tirar o dinheiro do país, por meio de ETFs negociados na B3, como o IVVB11 e o NASD11. O Nasdaq-100, focado em tecnologia, já entrega quase 10% em real este ano. França ressalta que o Nasdaq não substitui uma carteira global, sendo uma aposta mais concentrada em crescimento e IA.
Ian Caó, diretor de Investimentos da Gama Investimentos, aponta que as empresas de tecnologia e semicondutores puxam o crescimento. O Philadelphia Semiconductor Index subiu mais de 70% no ano. No entanto, o cenário de inflação pressionada e juros altos nos EUA, entre 3,50% e 3,75%, torna o momento desafiador para novos investidores. “É difícil apontar picos de mercado”, diz Caó.
Guilherme Zanin, analista CFA e professor na Eu Me Banco, alerta que o maior risco do brasileiro não está no dólar, mas em concentrar mais de 90% do patrimônio no Brasil. Ele cita um estudo da XP Investimentos que mostra menor retorno e maior volatilidade para quem manteve tudo no país em dez anos.
Rodolfo Marinho, da IP Capital, vê distorções no mercado. Ele afirma que o dinheiro novo está indo para semicondutores, energia e data centers, impulsionado pela IA. Para ele, empresas como Mastercard caíram 15% no ano, mesmo com lucro subindo 15%, criando oportunidades para quem seleciona ações individualmente.
Especialistas apontam que Europa e China também podem oferecer oportunidades. Luciano França vê a Europa como alternativa para diversificação em setores como bancos, indústria e energia. Maurício Garret, do Inter, vê oportunidades na China ligadas à infraestrutura para IA. Ele lembra que é possível acessar mercados globais por meio de contas internacionais e ETFs.
Para os próximos meses, o investidor deve acompanhar a inflação norte-americana, que atingiu 4,2% em maio, e a resposta do Federal Reserve. O juro de dez anos dos EUA e o prêmio fiscal do país também são variáveis importantes, especialmente para ações de tecnologia, que são sensíveis a essa curva. O rali das bolsas só se sustenta se as revisões de lucros continuarem positivas.
